segunda-feira, 5 de abril de 2010

Carneirinho, carneirão - Insônia


Ella contou carneirinhos esta noite. Quer dizer, contou gatos másculos e sem camisa pulando a cerquinha de sua casa de sonhos. Mas isso não pode ajudar ninguém a dormir, gente! Ella ficava correndo atrás dos rapazes...”voltem aqui!, voltem aqui”!
Mas o que fazer quando todos estão tendo os sonhos dos justos e você lá, de olhos arregalados, vendo os ponteiros do relógio correrem?
Bem, pode-se inventar um teorema, imaginar a probabilidade de o ventilador de teto cair na sua cabeça, refazer a agenda, contabilizar os pagamentos da semana, imaginar porque aquele ex de 10 anos atrás lhe abandonou...mas aí mesmo é que o sono desaparece.
Ella se preocupa com o estrago de uma insônia em sua cútis de pêssego. Começa a imaginar que a bolsa roxa sob os olhos não ficará tão bem quanto um modelo do mesmo tom pendurado em seu ombro. Imagina o mau-humor típico das segundas-feiras tomando formas monstruosas ao longo de seu dia.
E vai para a janela. Sempre tem algum insone em algum apartamento vendo TV. Não dá vontade de ir lá chamá-lo? “Ei! Amigo, vamos conversar?”. Tipo jogar um gamão, trocar uma idéia, debater as notícias da madrugada...
Numa crise de insônia, apela-se para tudo. Ella abriu aquele livro chato que sempre deu sono, ligou a TV, viu gente vendendo tapete persa (alguém compra aquilo?), escolheu um anel de diamantes no Mil e Uma Noites (alguém compra aquilo também?), assistiu “Desejo de Matar” onde Charles Bronson tinha 20 anos , fez chazinho de camomila, tomou passiflorine...4 da manhã! “Vou ter que acordar daqui a pouco! Nada de sono? Desce logo um Lexotan de 3 KG!!!!!“

domingo, 4 de abril de 2010

O medo da Páscoa


Feliz Páscoa, caríssimos seguidores!
Ella não gosta muito do feriado da Semana Santa. Na verdade Ella nem ama chocolates (mesmo!). Ella foi criada em colégio de freiras e todo esse pedaço pós-Carnaval era de muita culpa. Ella sentia mais culpa na infância do que se comesse hoje trilhões de ovos de chocolate. Ella era acusada de ter matado Jesus. Ele morreu por sua causa! – apontavam as freiras. “Pensam que Páscoa é chocolate?” “Ele foi crucificado por sua causa”.

Custava ter didática para explicar direito? Ella se defendia mentalmente: “Mas eu nem estava lá, não era nascida, Jesus é maior que eu”. Sim, explicavam que a Páscoa comemorava a Ressurreição de Cristo, sua vitória sobre a morte, mas só depois de mostrarem filmes horríveis de todo o flagelo e a crucificação (só pra explicar: para uma criança de 7 anos!). Ella nem dormiu à primeira vez que assistiu o tal filminho. Ficava esperando Jesus se vingar dela durante o sono. E Ella assistiu o filme durante toda sua vida escolar até se adaptar àquilo e saber que Jesus era um cara bacana e que não se vingava de ninguém.

Certa vez, Ella fora fazer uma encenação da Via Crucis. Seria o homem que auxiliava Jesus a carregar a cruz. Ella devia ter uns 10 anos e pensou que aquela seria sua Redenção. Afinal, daquela história toda, pouca gente era legal, e Jesus ia ser eternamente grato a Ella.

Depois que Ella foi para a Catequese, começou a parte da confissão. “É época de confessar, de se arrepender de seus pecados”. Que pecado horrível pode ter uma criança de 9 anos que não seja contar uma mentirinha aqui e ali para a mãe? Ella tinha dor de barriga antes de confessar. “Se eu conto a verdade pro Padre, ele vai pensar que eu sou uma pessoa horrível porque eu dei cola para minha coleguinha e fui malcriada com meu pai. Mas será que Deus vai descobrir que eu tive vontade de beijar o lourinho na 5ª série na boca? E que vi umas fotos de gente pelada na revista que tinha na sala de estar do médico? Não vou contar, só vou contar a parte que respondi pro papai, essa tem salvação”. Ella filtrava os pecados. Sobre os cabeludos, decidiu que ia falar direto com Quem mandava. E vinham as penitências. E vinham depois as comparações das penitências entre os coleguinhas: “20 Ave-Marias? 20 Pai-Nossos?” Caraca! - Ella pensava- esses aí estão piores que eu...

Ella gostava do Domingo de Ramos, mesmo a Missa sendo compriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiida com um padre que só falava espanhol. Achava que os galhinhos queimados em dia de chuva REALMENTE impediriam relâmpagos e trovões. E saía toda feliz da igreja com seu Raminho pára-raio.

E a Sexta-Feira Santa? Não podia ouvir música, não podia brincar, era um dia de tristezas, de escuridão. Ella não entendia o porquê, afinal, todo mundo sabia que Jesus ia Ressuscitar depois mesmo. E quem não sabia, podia ver na TV, porque era dia de passar o filme “Jesus de Nazaré” do Franco Zefirelli. E não podia comer carne. Ella não sabia que presunto era carne. Distraidamente pegou uma fatia para comer e, quando foi levá-lo à boca, levou um tapa na mão que fez o presunto voar longe. Ella só gostava da Sexta-Feira Santa por causa da canjica e da Sopa Paraguaia que sua família fazia (um bolo de queijo, cebola e milho maravilhoso que só tinha nessa época).

Enfim a Páscoa. Ufa! Aí sim, a felicidade chegava. Mas só chegava depois da Missa. Então a família se reunia, trocava chocolates, comia bacalhau e Ella ficava aliviada de terem esquecido quem tinha sido a culpada pela morte de Jesus.

sábado, 3 de abril de 2010

Clássicos da Literatura e os livros que Ella escondia embaixo da cama


Ella sempre amou os livros. Sempre foi estimulada à literatura, desde pequena. A leitura obrigatória de um livro por bimestre era ansiosamente aguardada por Ella. Não era dever, era prazer.
Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Ziraldo e Ana Maria Machado eram seus amigos de infância, e suas obras: “ Droga da Obediência”. “Marcelo, Marmelo, Martelo”, “A Bolsa Amarela”, “O menino maluquinho” e “Menina Bonita do Laço de fita”, seus grandes companheiros.
Ella conheceu Fernando Sabino pessoalmente. Fora convidada para ir à sua casa entrevistá-lo num trabalho escolar. Ella não dormiu uma semana de ansiedade e só queria dizer que “O menino no espelho” era lindo e queria aprender a voar como Odnanref.
E vieram as aulas de Literatura. Ella tinha uma professora-freira que amava os livros também. E por causa dela decorou “Marília de Dirceu” de Tomás Antônio Gonzaga. Entendeu o Arcadismo, o Barroco, o Romantismo, o Realismo, o Naturalismo, o Parnasianismo e o Simbolismo. E por causa dela passou a amar Machado de Assis. E por causa dela gabaritava as provas de Redação e Português e Literatura do Vestibular.
Mas Ella também tinha um ponto fraco. Como percebem, caras amigas, Ella teve uma infância suburbana. E gostava das coleções Julia, Sabrina e Bianca. Havia também as de Barbara Cartland, mas essas eram histórias de 1800 e não diziam as putarias nas entrelinhas que Ella gostava de ler.
Pode-se dizer que foram esses livros que deram a Ella as primeiras noções sobre sexo. Passara as férias da pré-adolescência trocando livros com suas irmãs mais velhas e sua prima. As 4 ficavam a tarde inteira sentadas na casa de praia, em silêncio sepulcral, tentando decifrar onde ficava o monte do amor.
Um dia, Ella, que era caçula do grupo, perguntou: “O que é o ápice do prazer?”. Suas irmãs riram, mas também não souberam explicar que isso se chamava orgasmo na vida real e que o membro rijo e ereto penetrava no monte úmido e no final dava nisso. Mas não havia uma trepadinha dessas que dão errado. Os dois gozavam juntos (e sempre), tinha um luar derramado sobre a cama ou os dois estavam presos numa cabana em uma noite escura e chuvosa ou num pôr-de-sol de uma praia deserta.
As histórias eram sempre as mesmas: O homem alto, másculo, atlético, viril, moreno, de olhos azul-cobalto, rico, bem-sucedido, disputadíssimo por outras mulheres e invariavelmente sem coração levava o livro inteiro para se apaixonar pela moça frágil, cabelos lisos e longos, dócil, quase sempre virgem que ia trabalhar para ele e que sofria até o penúltimo parágrafo. Mas o deus-grego só se apaixonava depois de comê-la primeiro. Não rolava um carequinha ou um barrigudinho com olhos castanhos... E os cenários? Grécia, Paris, Havaí... Óbvio! Quem se apaixonaria em Bangu ou no Bixiga?
Ella ficou com essa imagem de perfeição por toda sua vida. Já passou por mais vilões do que por heróis. Os cenários nunca foram lá muito paradisíacos e os finais, até agora, estão longe de serem felizes. Mas Ella continua lendo. Livros mais maduros, histórias mais reais e prepara ainda a biografia da história de amor mais linda de todos os tempos.
Ps.: Post dedicado à Sapa que também lia porcarias como Ella...rs

Memória Ploc-Lollo-Babaloo...adolescência nos anos 80


Continuando a onda nostálgica que assolou Ella, a fase que queremos esquecer: os anos 80. O pior: ser adolescente nos anos 80.

Tirando o fato que a “rebeldia” era marcada pela Legião Urbana, o resto todo era muito trash. Ella abandonara os radinhos de pilha de ondas curtas AM por com um incrível Walk-man com toca-fitas e rádio FM. A vitrolinha portátil Phillips que tocava “AS Patotinhas” fora trocada por um 3 em 1 com caixas de som gigantes. Ella amava Dire Straits, Wham e George Michael.
Mas isso foi só depois do Menudo. Na pré-adolescência de Ella, dançar “Não se Reprima” e colecionar pôsters e LP’s dos porto-riquenhos era “chocante”. Em seu primeiro hi-fi (festinhas onde meninas levavam biscoito Skiny e meninos, refrigerantes – ninguém enchia a cara de cerveja!), Ella torcia para que alguém lhe tirasse para dançar ao som de “If you not here” . E sempre ficava querendo. Ella era meio esquisita mesmo. Tinha aquele cabelo todo picotado que parecia um ninho de pombos e ficava armado que nem um poodle sem tosa. Mas era salva pelo New-Wave, um gel que deixava o cabelo duro e com cara de molhado. E ainda tinha a versão purpurinada!

Havia uma moda nova: os importados. Importados do Paraguai. Um batom rosa-cheguei que tinha uma embalagem verde-limão e duração de 24 horas. Parecia uma tinta. Tinta também era o “Rayto-de-sol-manchador-de-biquini”. Ficávamos laranja-Donatella Versace/Giorgo Armani. Combinava com os esmaltes "chocante", "rosa rei", "tropical" e o cintilante "raio-laser". Mais tintas? Canetas de 12 cores com cheirinho de tuti-fruti para guardar no estojo que tinha mil compartimentos. Um luxo!

No quesito roupa, a CeA tinha acabado de chegar. Ella se lembra, com pesar, de sua primeira roupa de festa: uma blusa amarelo-limão, uma calça “clochard” lilás, meias atoalhadas verdes e um tênis verde para combinar (?!). É óbvio que não poderia ser tirada para dançar, era a amiga engraçada e cdf que servia de cupido.

Meninas usavam calças bag e semi-bag da Phillipe Martin, mas Ella não pegou essa onda no início (só quando já estava acabando a moda). Ella não podia pagar por grifes e teve apenas um chaveirinho em forma de pé de pato da Company (a mochila de borracha de cor berrante tão sonhada não chegou nunca em seu armário). Meninos usavam “camisões de javaneza” estampados e tinham “mullets” na cabeça.
Ombreiras, short com meia calça, bolero-paquita de botões dourados, brincos de plástico gigantes, saia balonê, gravatinhas, suspensórios, óculos de coração e roupas de cor fluorescente...é claro que você jurava, como Ella, que isso nunca voltaria. Voltou. Mas Ella se recusa (parecia uma jogadora de futebol americano em seu blazer coral com ombreiras de mangas arregaçadas). Fluorescentes viraram “cítricos”, leggings de “lycra” viraram de strecht e ombreiras ficaram ombreiras mesmo. Ella não cometerá mais esses erros!

Bonito era fazer aeróbica de collant e polainas, igual à moça do filme Flashdance. Sonhar com o Patrick Swayze no Dirty Dancing e com o Tom Cruise no Top Gun, cantando suas respectivas trilhas sonoras “She’s like the wind” e “Take my breath away” era tu-do para uma “gatinha-Capricho”!

Mas há privilégios. Nossos ídolos estão até hoje por aí, não são descartáveis: Paralamas, Madonna, Barão Vermelho, Lulu Santos. E se a Blitz não existe mais, o Evandro e a Fernandinha Abreu estão aí para não nos deixar esquecê-la.
E Ella crescia. Crescia e suas calças não. Pescavam siri e deixavam as meias à mostra. Mas tudo bem... eram os anos 80 e Michael Jackson no dera essa permissão fashion-Thriller...

Velha Infância - Parte 2- Eu tenho, você não tem


Ella não era uma menina pobre de marré-deci, mas a inflação beirava os 800% ao mês e tudo era muito comedido: um frango assado no domingo dava para uma família de 4 pessoas e a “Coca-litro” dava para o almoço, para o jantar e ainda guardávamos para a 2ª feira com um garfo ou uma colher na boca da garrafa para não sair o gás!

As compras de início de ano enchiam Ella de ansiedade. A expectativa daqueles cadernos branquinhos, lápis sem a bundinha comida, etiquetas e uniforme novos davam a sensação de Reveillon. Mas passava rápido a felicidade...mamãe de Ella não entendia que canetinha de 6 cores e lápis de cor de 12 cores não davam asas à sua imaginação como as canetinhas de 12 e os lápis de 36. Que lápis preto e lapiseira 0,7mm não tinham a mesma escrita!

Ella usou cadernos brochura que tinham o Hino Nacional no verso enquanto algumas amiguinhas abastadas exibiam os lindíssimos Caderflex ou cadernos-espiral com capinhas lindas da Tilibra. Sorte que Ella era excelente aluna e seu caderno brochura-brochante (encapado de papel pardo e sem orelhas) era disputadíssimo, pois estava sempre completo e com milhões de “Parabéns, continue assim”.

O sapato 752 da Vulcabrás, com cadarços não era o estilo boneca sonhado por Ella. E como duravam! Outra grande decepção era o Conga azul marinho testão (nem me fale que isso é vintage, porque Ella tem trauma!) . O sonho era o Bamba branquinho ou os inacessíveis Montreal-chulé (aquele marrom que aparecia no Sílvio Santos). Sorte que no colégio de Ella os Kichutes eram proibidos para não arranhar o chão encerado das freiras!

A hora da merenda também tem memória. Uma lancheira plástica vermelha foi o primeiro acessório vermelho de Ella! Cabiam o Mirabel ou o pão com goiabada... ??? As riquinhas levavam pão com presunto, mas presunto lá na casa de Ella era só no pagamento de papai, o real era a deliciosa mortadela mesmo. Nos dias de glória, mamãe chiquérrima de Ella dava dinheiro para merenda (sim, mamãe de Ella era chiquérrima, escovada, usava casacos 7/8, trabalhava e dirigia!). O troco por devolver a garrafinha de Coca-Cola de 200 ml eram balas Juquinha que a gente comia com papel e tudo!

Quando as pastas escolares de couro horrendas começaram a dar lugar a mochilas de nylon, papai de Ella demorou a entender que não eram mochilas de acampamento. A primeira mochila de Ella ia de seu pescoço até o fim das coxas e eram feitas de lona militar.

Nessa época, Ella não ligava muito para roupas e sapatos (naquele tempo a única vida social de uma criança fora da escola era no quintal brincando....). Andava de uniforme ou com conjuntinhos de algodão da Citycol e da malharia Mena comprados nas banquinhas.

Mas Ella sempre se preocupou com sua beleza. Usava a Seiva de Alfazema Phebo que sempre ganhava de aniversário de alguma tia velha. Usava Creme-C Pond’s da mamãe que ficava na penteadeira dando mole. Amava ira ao salão aos sábados ver mamãe pintando as unhas de vermelho-encarnado e fazendo escova estilo Farrah-Fawcett. O cabelo de Ella não era lá essas coisas...enquanto suas irmãs tinham longos e lisos cabelos fio-reto , Ella tinha caracóis curtos. Às vezes, piolhos ficavam debaixo dos caracóis de seus cabelos. Eram mortos com pente fino e Pruritrat (ou aquela amarela latinha de Neocid!!!!). Nada domava aqueles cachos, só o creme-rinse Neutrox amarelo para o dia-a-dia e Neutrox 2 rosa para os dias de praia. A praia era acompanhada do óleo Johnson com urucum para ficar bem bronzeada e o excesso era minimizado com pasta d’água ou Caladryil rosa. Câncer de pele e envelhecimento não estavam na ordem do dia. Descascar era até charmoso!

Caríssimas, como se vê, certas coisas do passado justificam nosso presente. Os traumas do bulling “eu tenho, você não tem” das amigas lisas e louras de escola sempre ecoaram na cabeça de Ella. Ella evoluiu e pode pagar (quase sempre) por seus sonhos de consumo. Mas desde quando não podia mesmo, sempre soube o que era bom.

Velha Infância - Parte 1 - Diversão e Arte



Ella acordou nostálgica hoje! Alguém falou uma palavrinha simples: Cremogema! E a musiquinha da propaganda começou a ecoar pelos ouvidos: “Crem, cremo,cremo,cremogema é a coisa mais gostosa desse mundo, a mamãe queeeeeeer o melhor pra gente, crem,cremo,cremo,crê-mo-ge-má!” O gostinho do mingau veio imediatamente! E puxou junto a musiquinha do “Roda-baleiro, atenção...” das balas Kids de leite com o baleiro rodopiando.

Ella e seu irmão espalhavam Playmobill Apache, Bombeiro, Hospital, Circo e Piratas pelo quintal e, quando a cidade ficava pronta, a brincadeira ficava sem graça.Ella tinha uma Susi cabeção (a Barbie não era para seu bico). Susi namorava o Falcon, aquele boneco másculo e ruivo de barba.

Outro hobby de Ella eram as coleções: papel de carta, figurinhas do “Amar é”, bonequinhas de papel para trocar as roupas, Moranguinhos, Fofoletes e gibis da Turma da Mônica.

No verão, as piscinas “Toni” eram a “alegria da garotada”. Não se tinha notícia de buraco na camada de ozônio e era possível ficar numa praia até as 14 horas jogando frescobol ou nas bóias feitas de pneu de caminhão. O sol era amigo. E chamava o Natal. E o Natal tinha a magia do “Não esqueça minha Caloi”. Não colou. Ella sonhava com a Caloi Ceci (que tinha uma cestinha) e teve uma Monark Monaretta.

Também no Natal tinha o jingle da Varig: “Estrela brasileira, no céu azul, iluminando de norte a sul (...)Varig, Varig, Varig”. Ella não andava de avião, mas sua tia mais chique trazia as máscaras de dormir e as nécessaires chiquérrimas da Pan-Am para as sobrinhas. Por que hoje esse glamour acabou?Só dão horrendas barras de cereais?

A moça do Yakult batia na porta de casa para vender as garrafinhas e iogurte só se chamava “Danone”. As festas infantis eram em casa mesmo, com cajuzinhos, brigadeiros. Alguém me explica por que faziam docinhos de queijo? Íamos com o maior apetite achando que eram beijinhos de coco e eram de queijo! Argh!

Só tínhamos 5 canais de TV. De manhã, a Paula Saldanha apresentava o Barbapapa no Globinho e o Bozo passava o Pica-Pau (que Ella vê até hoje). Tinham ligações ao vivo para jogar Batalha Naval (pow,pow,pei!), Bozo Corrida (“Vai malhado, vai malhado!”) e Bozo Memória (Ella ainda sabe a musiquinha "5851385 é o telefone espertinho do Bozo”). Ella tinha medo da Vovó Mafalda, do Salsifufu e do garoto Juca.
Às 5 da tarde, Ella voltava correndo da escola para assistir o Sítio do Pica-Pau Amarelo, emendava no Daniel Azulay e só acabava no Tom e Jerry às 19 horas. Depois era hora do jantar. Todo lazer era cronometrado.

Antes de cada programa aparecia um documento da ditadura dizendo qual era a faixa etária recomendada. Mamãe deixava Ella assistir fora de sua faixa-censura Baretta, Kojak, Casal 20, Chips, Ilha da Fantasia (amava o Tatu gritando: Chegou o avião, chegou o avião!) e Panteras. Ella sempre achava que ia ser a Kelly das Panteras ou se ficasse rodopiando se transformaria na Mulher Maravilha.

No sábado tinha Chacrinha. Ella quis ser chacrete (gente, todo mundo tem um lado B!) e achava linda aquela coreografia! kkk. Imitava a Gretchen, cantava Sandra Rosa Madalena e achava o Sidney Magal o máximo! No domingo tinha Silvio Santos, mas mamãe de Ella (muito centrada e culta) não deixava. De vez em quando, o espírito brega que assolava Ella, colocava sorrateiramente no canal 11 para ver a batalha emocionante do Trio Los Angeles com o Biafra no "Qual é a Música". “Pablo qual é a música?” E um traveco louro jogava os cabelos pra cantar. Ella também torcia para o menino da cabine sem som trocar uma bicicleta por uma caixa de fósforos: “Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmm”.

Domingo às 19 horas, os Trapalhões eram sagrados como a Missa. E no cinema também. Ella e seus primos ficavam duas horas na fila, no sol, sem reclamar até entrar no cinema para ver “Os Saltimbancos Trapalhões” ou “O Mágico de Oroz”. A música do Fantástico dava a triste notícia que o fim de semana tinha acabado.

Mas ao contrário das crianças de hoje que têm de ir ao Inglês, à natação e à Yoga, quando não estão na escola, o tempo livre era para fazer alguns deveres de casa, brincar e ser feliz.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Para olho gordo: colírio diet


Amigas, falemos sobre o pior dos sentimentos: o mau-olhado. Não há magia, macumba ou desejo mais poderoso que “aquele” olhar atravessando suas costas. Tem gente que parece ter visão de infra-vermelho... chega até a queimar!

E o olho gordo não atinge só os ricos, bonitos e bem-sucedidos em tudo. Tanto isso é verdade que tem um monte de Monza velho com adesivos: “Não me inveje, trabalhe”. Porra, se neguinho inveja motorista de Kombi, que avisa que “a sua inveja é a velocidade do meu sucesso”, imagine nós! Lindas, magras, saradas, independentes, cabelos de comercial de shampoo, sorriso de comercial de pasta de dentes, cheias de amigos como no comercial de cerveja, família perfeita de comercial de margarina, que ganhamos bem e trabalhamos pouco (Ella também sonha, gente!).

O pior é quando a inveja vem de fogo-amigo...aquela pessoa que está sempre do seu lado, que você não pode se desvencilhar socialmente e que acaba com seus planos antes que eles virem realidade. Aquela que acaba entrando na sua casa e diz: “Que linda planta!” e a bichinha amarela em 5 segundos. Ou a que vê seu trabalho de sucesso e tenta miná-lo. Quando você diz inocentemente que vai viajar com seu amado (seja para Paris ou para o Paraguai), a seca-pimenteira consegue derrubar o avião! “Você engordou”? Ou a variação: “nossa, seu cabeleireiro errou a mão desta vez!” – são discursos claros de quem acha que você está ótima, com tudo em cima e ela não chega aos pés.

Fora que essa gente sugadora, por não ter o que você tem, fomenta a discórdia em seus relacionamentos, coloca minhoquinhas na sua cabeça e depois dá um suspiro de alívio quando você está infeliz: “eu não te disse?”.

Ainda há a “invejinha branca” ou “inveja boa”. Gente. Inveja é inveja, é sempre ruim. Você pode ter o desejo de ter um casamento parecido com o de sua amiga, mas querer o marido dela é outra coisa! Desejar algo de bom que o outro tenha, não é inveja, é cobiça. Desejar tirar o que é bom deste outro sim. Não desejar que o outro seja feliz com a boa sorte, boa luz e alegria que lhe foram abençoados, isso é inveja!

Mas como nos proteger dessa energia maléfica? Pegar uma estaca e umas balas de prata para quando o inimigo olhudo chegar? Sal grosso, arruda, pimenta, olho-grego, patuá, reza? Vale tudo. Mas bom mesmo seria um colírio diet para esse olho-gordo!